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Quando fiz o Trepliev em “A Gaivota” dirigido por Luis Paulo Vasconcellos tive, pela primeira vez o contato com o chamado “trabalho de mesa” que é um estudo aprofundado do texto, dos personagens, dos conflitos, dos nós dramáticos e, principalmente dos “subtextos”, o que há por trás de cada fala.

Meu trabalho começa com um estudo da retórica. A retórica surgiu na Grécia Antiga, especificamente na Sicília (Magna Grécia) por volta do século V a.C., impulsionada pela necessidade de resolver disputas de terras após a queda de tiranos, evoluindo para uma arte da persuasão essencial na política e nos tribunais gregos, com grandes teóricos como Aristóteles.

Os principais elementos da retórica, baseados na tradição aristotélica e clássica, são os apelos persuasivos Ethos (credibilidade), Pathos (emoção) e Logos (lógica), combinados com os Cinco Cânones: Invenção (o que dizer), Disposição (organização), Elocução (estilo), Memória (memorização) e Entrega/Ação (performance), essenciais para criar um discurso eficaz e persuasivo.

Não só nos grandes discursos utilizamos os elementos da retórica, eles estão na literatura, na poesia, nas canções e certamente na dramaturgia. Sempre haverá uma metáfora, uma hipérbole, uma ironia, um eufemismo, uma antítese, um paradoxo, uma metonímia, uma redundância e tantos outros.

Depois partimos para o uso da voz: a respiração, as ressonâncias, os articuladores (maxilares, lábios, língua etc.) projeção e intensidade.   Estudamos as palavras, sua origem, sua pronúncia (no teatro russo temos alguma dificuldade em pronunciar os nomes e sobrenomes dos personagens e outros termos do idioma), vemos que a palavra tem seus significados, mas também tem forma, cheiro, peso, cor e sentimentos próprios, ninguém diz “estou exausto” com prazer ou tranquilidade.

O estudo das palavras é fascinante pois elas mudam a cada estado do país, em outros idiomas e podem ir mudando os conceitos conforme a época. Ouvimos textos em vários idiomas e analisamos sua musicalidade, sua fonética (o inglês americano, o britânico, o francês, o árabe, o alemão, o japonês, o russo. Por isso improvisamos com Gramellot que é uma língua inventada muito usada na “Commedia Dell’Arte”.

Quando o ator trabalha um personagem de outro estado do país, por exemplo, nós estudamos o que se chama de prosódia, as palavras daquele lugar, o ritmo e a musicalidade da fala, as gírias. Se formos interpretar um personagem nordestino temos que estudar as especificidades de cada região do Nordeste, a “fala nordestina” não é exatamente igual, muda a cada região.

Depois partimos para a construção do texto, onde os alunos criam metáforas, acrósticos, poesias, textos dramáticos, discursos, textos jornalísticos etc.

Em seguida aprendemos a analisar um texto com suas intenções, intensidades, subtextos, inflexões, volumes, curvas melódicas, ritmos, pausas lógicas e psicológicas, ritmos etc.

Então mergulhamos em vários estilos de dramaturgia com suas diferentes interpretações, Tchekov e Beckett são linguagens completamente diferentes, a comédia tem um ritmo especial, tem as gags, o improviso, a pausa que antecede o riso. Moliére, Shakespeare, a Comédia Dell’arte entre outros traz uma ênfase, uma inflexão maior. A tragédia grega traz o “registro trágico”, a grandeza, a “dor sem lágrimas”, a potência.

A intimidade do ator com o texto e com as técnicas de interpretação desse texto é um estudo fundamental para atores e não atores.

Neste novo módulo vamos estudar a obra-prima de Nelson Rodrigues “Vestido de Noiva”.


A interpretação de um texto nos leva a uma viagem fascinante por todas as suas camadas, seus conflitos, os nós dramáticos, os sentimentos. A análise dos elementos de retórica, etimologia, semântica (estudo das palavras e das expressões). Além de técnicas de voz (respiração, ressonâncias e dicção) proponho um estudo da partitura vocal, intenções, subtextos, pausas lógicas, psicológicas e de respiração), inflexões, intensidades, curvas dramáticas. O discurso improvisado, exercícios práticos com textos dramáticos (teatro, cinema), jurídicos (os grandes discursos e a clareza nas sustentações orais), e publicitários.


O ATOR E O TEXTO

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